ENTREVISTAS



 

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willer.jpg (5532 bytes) Rodrigo de Souza Leão entrevista Cláudio Willer

- Ocorre com o surrealismo algo que é mais extremado com o romantismo. Este último ganhou a alcunha de lírica amorosa. Assim, qualquer música que fala de amor é romântica. São românticos os namorados. Com o surrealismo, sucedeu coisa parecida. As pessoas utilizam o surreal para qualquer ausência de sentido em texto e atos. De certa forma, esta discussão daria um livro. Você poderia fazer uma mini genealogia, à moda de Nietzsche, e mostrar o por quê ocorreu a mudança.

- Na própria pergunta você indica muito bem como se processa a diluição, a criação do estereótipo, associando surrealismo a coisa sem pé nem cabeça, ao arbitrário, confundindo-o com nonsense. É igual a acharem que todo poeta é um cabeça de vento. Surrealismo sempre se apresentou como continuador da rebelião romântica, que, obviamente, é bem mais do que alguns suspiros profundos ao luar de mãos dadas. Na revisão da história da literatura proposta no Segundo Manifesto do Surrealismo, André Breton diz que o centenário do Romantismo é sua juventude, que isso, que se chama erradamente de sua época heróica não pode mais, honestamente, passar senão pelo vagido de um ser que mal começa a dar conhecimento de seu desejo através de nós, e que, admitindo-se que aquilo que foi pensado antes dele - classicamente - era o bem, quer, incontestavelmente, todo o mal. A mesma revisão, entendendo Romantismo, não como período marcado por algumas datas do final do século XVIII e meados do XIX, mas como processo, vertente da rebelião e ruptura, é feita por Octavio Paz em Los Hijos del Limo, ao falar em revolução romântica, manifestação da tradição da ruptura, oposta ao classicismo, distinguindo-a do romantismo oficial dos manuais de literatura.

 

- É possível dizer que qualquer poema tem um quê de surrealista quando utiliza a linguagem poética?

- Temos que pensar no surrealismo como movimento de idéias, voltado para a relação entre poesia e vida. Como afirmação de valores, principalmente a liberdade de criação e o poder criador e subversivo da imaginação, assim expressando a contradição entre poesia e sociedade. E como um modo de politização dessa contradição, ou uma tentativa de projetá-la na História. Então, interessa não só a obra, o texto em si, mas um determinado tipo de integridade ou articulação entre arte e vida. Daí o surrealismo ter execrado figuras do mundanismo cultural, da facilitação burguesa, mesmo com produção artística expressiva, bem como os sectários, os poetas oficiais do Partidão e afins. Designo como surrealistas autores que participaram desse movimento, ou que mostraram ter afinidade com as idéias, e não só com uma hipotética forma surrealista. Em caso contrário, acabaríamos enxergando surrealismo em video-clipes, anúncios criativos e outros exemplos de arte instrumentalizada.

 

- Há um mito de que o surrealismo não teve grandes poetas. Verdade?

- Intelectuais de prestígio andaram dizendo isso, por aqui. Entre outros, Décio Pignatari. Já tratei disso em minha entrevista para Azougue. É um completo absurdo. André Breton. Paul Eluard. Robert Desnos. Benjamin Péret. Aragon. Jacques Prevert participou. Poetas como Ponge ou Queneau tomaram outra direção, mas fizeram parte. René Char participou três anos, nos quais não escreveu nada, mas disse que foram os três anos mais importantes da vida dele. Portanto, o melhor da poesia francesa da primeira metade do século. Na segunda metade do século, uma espécie de expansão, com mais autores em outras línguas. Octavio Paz. Vários outros ibero-americanos importantes, que ninguém conhece aqui, como o argentino Aldo Pellegrini. O antilhano Aimé Césaire. Mário Cesariny, Antonio Maria Lisboa e outros grandes poetas portugueses. O norte-americano Philip Lamantia. Brasileiros que o Brasil não lê, ou cujo interesse por surrealismo finge desconhecer.

 

- Na Azougue você disse que "João Cabral na fase final torna-se o corifeu da escrita a frio, da suspensão da emoção". E também afirma que a metáfora e a analogia foram substituídas pela paráfrase. Ainda há a linguagem conotativa? Será que o futuro colocará a geração atual como sendo parnasianos, poemas sem poesia?

- Há tanta gente escrevendo poesia, e de modos tão diferentes, que algum historiador futuro talvez venha a enxergar coisas completamente diferentes daquelas que a crítica consegue vislumbrar hoje. Mas é bem possível que nossa época seja vista como dominada por um formalismo, por sua vez equivalente a um parnasianismo clean, sem todo aquele preciosismo vocabular, mas norteado pelos mesmos princípios. A idéia de composição elaborada, da escrita a frio, descartando a emoção, a inspiração, a possessão, justificada, não mais pelo parnasianismo, mas pelo formalismo e construtivismo, ou por generalidades, idéias mais vagas, declarações genéricas em favor do bom comportamento literário, da burocratização da escrita, das quais as mais expressivas são aquelas de João Cabral.

 

- O que a falta de um movimento literário provoca na poesia atual?

- Talvez não seja mais tempo de movimentos fechados, buscando a consistência, como aqueles da primeira metade do século, e dos quais a poesia concreta, tal como se apresentava na década de 50, mais algumas outras tendências formalistas, foram a versão final. Acho que há confrarias, grupos de poetas que se aproximam por afinidades, por opiniões, perspectivas, uma poética em comum. Aquela matéria meio desastrada da Veja, retratando alguns desses grupos de modo caricato, relaciona-se, contudo, com algo real. Junto com uma melhor veiculação de poetas, por revistas como Cult, Azougue, Medusa, Monturo, Inimigo Rumor etc., está recomeçando a haver debates, afirmações de diferenças literárias. Isso é bom anima o ambiente, desde que associado à veiculação de informação, e não à mera manifestação de antipatias e simpatias.

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