Literatura

O CORVO: FILOSOFIA DA COMPOSIÇÃO

 Edgar Allan Poe

  (*) Silveira de Souza

      Aceitando,  então, a Beleza como o meu campo de ação, o objetivo subseqüente referiu-se ao tom para a sua mais alta manifestação – e todas as experiências têm mostrado que esse tom é o de tristeza. A Beleza, qualquer que seja a sua espécie, no seu desenvolvimento supremo conduz invariavelmente às lágrimas os espíritos sensíveis. Assim, a melancolia é a mais legítima das tonalidades poéticas.

      Determinados, portanto, a extensão, a  província e o tom,  apliquei-me à indução usual tendo em vista obter algum pique artístico que me servisse de fio condutor para a construção do poema um pino sobre o qual pudesse girar toda a estrutura. Ao pensar com cuidado nas formas de  produção de  efeitos artísticos,  melhor dito, nas marcações, em seu  sentido teatral,  não deixei de perceber imediatamente que nada tem sido tão universalmente utilizado como o refrão. A universalidade de seu emprego foi o suficiente para assegurar-me de seu valor intrínseco e poupou-me da necessidade de submetê-lo a uma análise  Mas passei a considerá-lo desde o início  como algo suscetível de aprimoramento e logo percebi que ainda se achava num estágio primitivo. Como usado habitualmente, o refrão, ou estribilho, não apenas se limitava ao verso lírico  como dependia de um toque de monotonia   para a eficácia de sua impressão tanto no som quanto no pensamento. A sensação de prazer é deduzida unicamente a partir de um sentido de identidade, de repetição. Decidi então diversificar o processo, e assim ampliar o seu efeito, aderindo geralmente à monotonia do som e fazendo contínuas  variações no pensamento: ou seja,  optei pela produção contínua de novos efeitos na idéia através de modificações na aplicação do refrão – permanecendo este  refrão, na maioria das vezes, invariável.

      Estabelecidos estes pontos, passei em seguida a refletir sobre a natureza do meu refrão. Desde que  sua aplicação deveria ser constantemente modificada, ficou claro que este refrão teria de ser breve, caso contrário dificuldades intransponíveis haveriam de surgir na sua aplicação em sentenças longas. A facilidade de variação das sentenças  deveria estar numa proporção direta com a brevidade do refrão, o que me levou a reduzi-lo, como solução ideal, a uma única palavra.

       A questão agora se prendia  ao caráter dessa palavra. Tendo a mente já fixada na necessidade de um refrão, o corolário foi a divisão do poema em estâncias, aparecendo o refrão  no fecho de cada estância. Sem dúvida tal fecho, para expressar força, deveria ter sonoridade e ser suscetível de prolongada ênfase, admitida sem vacilações. Esses argumentos conduziram-me inevitavelmente à utilização do o longo como a vogal mais sonora, em conexão com o r, que me pareceu a consoante mais aproveitável.

      Encontrados os elementos para o som do refrão , tornou-se necessário selecionar a palavra que os encorpasse e que estivesse, ao mesmo tempo, em correspondência com a melancolia que eu havia predeterminado para o tom do poema. Teria sido, nessa busca, a bem dizer impossível não enxergar a palavra Nevermore (jamais, nunca mais). De fato, foi a primeira que se apresentou.

      O próximo desideratum foi achar um pretexto para o uso contínuo da palavra nevermore. Considerando a dificuldade que desde logo encontrei para inventar um motivo suficientemente plausível que justificasse a repetição,  percebi  de repente que a dificuldade sobrevinha da pressuposição de que a palavra teria de ser constante ou monotonamente pronunciada por um ser humano – e não demorei enfim a concluir que a dificuldade estava na conciliciação da monotonia com um comportamento racionalmente aceitável da parte da criatura que repetisse essa palavra. Então, neste ponto, cresceu a idéia de uma criatura não-racional capaz de falar, naturalmente um papagaio, como sugestão primeira e óbvia,  mas imediatamente substituída pela imagem de um Corvo, que também é capaz de falar e estava em consonância imensamente maior  com o tom pretendido.

      Havia então chegado em definitivo à concepção de um Corvo, uma ave de mau agouro, a repetir monotonamente a palavra única Nevermore no fecho de cada estância  de um poema em tom melancólico e com uma extensão aproximada de cem versos. Sem jamais perder de vista o objetivo – pleno domínio e perfeição em todos os tópicos – perguntei a mim mesmo: “De todos os aspectos da melancolia, qual aquele, de acordo com o universal entendimento da humanidade, é o mais melancólico?” A morte, foi a resposta óbvia. “E quando”, tornei a perguntar, “este mais melancólico dos aspectos  se torna o mais poético?” Do que já foi por mim largamente exposto, a resposta também aqui é óbvia:  “Quando ele se alia mais de perto à Beleza: então, a morte de uma bela mulher é inquestionavelmente o aspecto mais poético no mundo e fica além de qualquer dúvida que os lábios melhor apropriados para expressarem tal aspecto são os do amante  despojado de seu amor”.

      Tinha agora de combinar as duas idéias, a de um amante  lamentando a perda da mulher amada e a de um Corvo que repetia a palavra Nevermore. Nesta combinação deveria sustentar o desígnio de variar em cada estância a aplicação da palavra repetida, mas o único modo inelegível de realizar  tal aplicação seria imaginar que o Corvo empregava a palavra em resposta às perguntas do amante. Foi então que vi,  de imediato, a oportunidade concedida para o efeito do qual vinha dependendo, isto é, o efeito da variação da aplicação. Vi que poderia fazer a primeira pergunta do amante – a primeira pergunta à qual o Corvo deveria responder Nevermore –, que poderia fazer desta primeira pergunta  um lugar-comum,  da segunda pergunta uma expressão menos comum, da terceira ainda menos, e assim por diante, até que por fim o amante, alarmado pela sua nonchalance inicial  ante o caráter melancólico da palavra mesma, ante sua freqüente repetição, ante a ominosa  reputação da ave que a pronunciava, é finalmente perturbado até a superstição e, insensato,   vai formulando perguntas de natureza as mais diversas, cujas respostas ele apaixonadamente trazia guardadas no coração,  formulando-as num misto de superstição e daquela espécie de desespero que encontra prazer na auto-tortura, propondo-as em suma não porque acreditasse no caráter profético ou demoníaco da ave (que a razão lhe assegura tratar-se da mera repetição de lição aprendida pela rotina), mas porque experimenta uma frenética satisfação em modelar as perguntas de modo a receber do esperado nevermore  a mais deliciosa, porque a mais intolerável, das tristezas. Percebendo a oportunidade que assim me foi dada, ou, de modo mais preciso,  que me forçou a um aperfeiçoamento da construção, pude estabelecer mentalmente o clímax ou ou a pergunta  conclusiva – a pergunta para a qual Nevermore deveria ser a resposta definitiva, a resposta que envolveria a quantidade extrema concebível de tristeza e desespero.

      Pode dizer-se que nesse momento o poema teve o seu começo, a descoberta conclusiva por onde começam as obras de arte, pois foi aí neste ponto de minhas reconsiderações que, pela primeira vez, usei da pena para escrever no papel a estância:

  “Prophet!”, said I, “thing of evil! – prophet still, if bird or devil!
    By that  heaven that bends above us – by that God we both adore –
    Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
    It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore –
    Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore.”
                             Quoth the Raven: “Nevermore”.
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”  (1)
(1) Foi utilizada a versão de Machado de Assis na tradução das estâncias do poema.

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Leia The Raven de Edgar Allan Poe, aqui
Traduções de The Raven

Charles Baudelaire
Stephane Mallarmé
Fernando Pessoa
Machado de Assis

(*)Tradução de João Paulo SILVEIRA DE SOUZA nasceu em Florianópolis, SC, em 1933. Começou cedo suas atividades culturais em SC. Na década de 50 passou a integrar o Círculo de Arte Moderna, mais conhecido como Grupo Sul, movimento que trouxe o Modernismo para Santa Catarina. Também nessa década participou de atividades teatrais, integrando como diretor do grupo teatral TESC (Teatro Experimental de SC); e dirigiu o mensário de literatura e arte Roteiro.

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