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de setembro de 1908, morria Machado de Assis
“Ouviram-se umas tímidas
pancadas na porta principal da entrada. Abriram-na.
Apareceu um desconhecido: um adolescente de 16 a 18 anos
no máximo. Perguntaram-lhe o nome, declara ser
desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia, não
conhecia por sua vez ninguém: não conhecia o próprio
dono da casa, a não ser pela leitura dos livros que o
encantavam... Que o desculpassem, portanto. Se não lhe
era dado ver o enfermo dessem-lhe ao menos notícias
certas do seu estado. E o anônimo juvenil vindo da
noite foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não
disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre:
beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-a
depois por momentos ao peito. Levantou-se e, sem dizer
palavra, saiu”.
O texto é de Euclides
da Cunha (“A última visita”, Revista do Grêmio
Euclides da Cunha, de 15 de agosto de 1915), que com
Coelho Neto, Raimundo Correia, Rodrigo Otávio, Graça
Aranha, José Veríssimo, estava no casarão da Rua
Cosme Velho, 18, naquela noite de 27 de setembro de
1908. Na madrugada do dia 28, morria ali Joaquim Maria
Machado de Assis. O jovem que Euclides da Cunha
registrou visitando o moribundo era Astrogildo Pereira,
que naquele mesmo ano liderou as greves operárias no
Rio pela conquista das oito horas de trabalho.
Astrogildo se tornaria fundador do Partido Comunista
Brasileiro, em 1922, e crítico literário com notáveis
trabalhos sobre Machado de Assis.
O morto aqui lembrado,
um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, é
imortal eternamente. Na cadeira 23 ou na presidência da
instituição, não passou em brancas nuvens, a ponto de
a ABL também ser chamada Casa de Machado de Assis.
Filho de operário e mulato, criado no morro do
Livramento, no Rio, se tornou um nome ímpar na
literatura brasileira.
Machado de
Assis, o sempre imortal
Sem meios para cursos
regulares, foi um autodidata e, em 1855, com 16 anos
incompletos, publicou o primeiro trabalho literário, o
poema "Ela", na Marmota Fluminense, jornal de
Francisco de Paula Brito, em 12 de janeiro de 1855. No
ano seguinte, entrou para a Imprensa Nacional, como
aprendiz de tipógrafo, e lá conheceu Manuel Antônio
de Almeida, que se tornou seu protetor. Em 1859, era
revisor e colaborador no Correio Mercantil e, no ano
seguinte, a convite de Quintino Bocaiúva, passou a
pertencer à redação do Diário do Rio de Janeiro.
Escrevia regularmente também para a revista O Espelho,
onde estreou como crítico teatral, A Semana Ilustrada,
de 16 de dezembro de 1860 até, pelo menos, 4 de julho
de 1875, Jornal das Famílias, no qual publicou de
preferência contos.
O primeiro volume de
Machado de Assis foi impresso, em 1861, na tipografia de
Paula Brito, com o título “Queda que as mulheres têm
para os tolos”, mas o nome de Machado aparecia como
tradutor. Em 1862, era censor teatral, cargo não
remunerado, mas que lhe dava ingresso livre nos teatros.
Começou também a colaborar em O Futuro, órgão
dirigido por Faustino Xavier de Novais, irmão de sua
futura esposa. Seu primeiro livro de poesias, Crisálidas,
saiu em 1864. Em 1867, foi nomeado ajudante do diretor
de publicação do Diário Oficial. Em agosto de 1869,
morreu Faustino Xavier de Novais e, menos de três meses
depois (12 de novembro de 1869), Machado de Assis se
casou com a irmã do amigo, Carolina Augusta Xavier de
Novais.
O primeiro romance de
Machado, “Ressurreição”, saiu em 1872. Pouco
depois, o escritor foi nomeado primeiro oficial da
Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio
e Obras Públicas, iniciando assim a carreira de
burocrata que lhe seria até o fim o meio principal de
sobrevivência. Em 1874, começou a publicar, em O Globo
de então (jornal de Quintino Bocaiúva), em folhetins,
o romance “A mão e a luva”. Intensificou a colaboração
em jornais e revistas, como O Cruzeiro, A Estação,
Revista Brasileira (ainda na fase Midosi), escrevendo crônicas,
contos, poesia, romances, que iam saindo em folhetins e
depois eram publicados em livros. Uma de suas peças,
“Tu, só tu, puro amor”, foi levada à cena no
Imperial Teatro Dom Pedro II (junho de 1880), por ocasião
das festas organizadas pelo Real Gabinete Português de
Leitura para comemorar o tricentenário de Camões, e
para essa celebração especialmente escrita. De 1881 a
1897, publicou na Gazeta de Notícias as suas melhores
crônicas.
Em 1881, o poeta Pedro
Luís Pereira de Sousa assumiu o cargo de ministro
interino da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e
convidou Machado de Assis para seu oficial de gabinete
(ele já estivera no posto, antes, no gabinete de Manuel
Buarque de Macedo). No mesmo ano, saiu também o livro
que daria uma nova direção à carreira literária de
Machado de Assis: “Memórias póstumas de Brás
Cubas”, que ele publicara em folhetins na Revista
Brasileira de 15 de março de 1879 a 15 de dezembro de
1880. Revelou-se também extraordinário contista em
“Papéis avulsos” (1882) e nas várias coletâneas
de contos que se seguiram. Em 1889, foi promovido a
diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que
servia.
A obra de Machado de
Assis abrange, praticamente, todos os gêneros literários.
Na poesia, inicia com o Romantismo de “Crisálidas”
(1864) e “Falenas” (1870), passando pelo Indianismo
em “Americanas” (1875), e o Parnasianismo em
“Ocidentais” (1897-1880). Paralelamente, apareciam
as coletâneas de “Contos fluminenses” (1870) e
“Histórias da meia-noite” (1873); os romances
“Ressurreição” (1872), “A mão e a luva”
(1874), “Helena” (1876) e “Iaiá Garcia” (1878),
considerados como seu período romântico. A partir daí,
Machado de Assis entrou na grande fase das obras-primas:
“Memórias póstumas de Brás Cubas”, romance
(1881); “Papéis avulsos”, contos (1882); “Histórias
sem data” (1884); “Quincas Borba”, romance (1891);
“Várias histórias” (1896); “Páginas
recolhidas”, contos, ensaios, teatro (1899); “Dom
Casmurro”, romance (1899); “Esaú e Jacó”,
romance (1904); “Relíquias da casa velha”, contos,
crítica, teatro (1906); e “Memorial de Aires”,
romance (1908).
Em 1936, W. M. Jackson,
do Rio de Janeiro, publicou as Obras completas, em 31
volumes. Raimundo Magalhães Júnior organizou e
publicou, pela Civilização Brasileira, os seguintes
volumes de Machado de Assis: “Contos e crônicas”
(1958); “Contos esparsos” (1966); “Contos
esquecidos” (1966); “Contos recolhidos” (1966);
“Contos avulsos” (1966); “Contos sem data”
(1966); “Crônicas de Lélio” (1966); “Diálogos e
reflexões de um relojoeiro” (1966). Em 1975, a Comissão
Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação
e Cultura e encabeçada pelo presidente da Academia
Brasileira de Letras, organizou e publicou, também pela
Civilização Brasileira, as Edições críticas de
obras de Machado de Assis, em 15 volumes, reunindo
contos, romances e poesias desse escritor máximo da
literatura brasileira.
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Machado
é Poeta é poeta e é Poeta
O maior nome da literatura brasileira é Machado de
Assis. Romancista incomparável, contista soberbo,
muito pouca gente detecta o valor inaudito do poeta Machado
de Assis. Capaz de cometer poemas como Carolina
Carolina
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.
Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
Neste soneto de 1906, podemos perceber que todas as
características de um grande soneto estão presentes.
Desde a perfeita métrica até a rima em ornamental
riqueza, o ritmo da dor pulsando e aumentando na
medida e progressão do desvelo e do desvendar do
augure. Destaco as metáforas dos versos
"Trago-te
flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados."
O fato de ser poeta pode surpreender alguns mas a
primeira manifestação literária de Machado de Assis
foi numa poesia. Tratava-se de ELA, publicado na
Marmota Fluminense, jornal, quando o então aspirante
a escritor tinha 16 anos de idade.
Publicou quatro livros de poesia, dois tinham uma
forte influência de Castro Alves. Foram eles "Crisálidas"
(1864) e "Falenas" (1870). Em "Americanas"
(1875) as influências alencarinas são fortes, e
o recurso da metalinguagem externa mostra que o
assunto do livro não era unicamente os aborígenes
brasileiros. "Ocidentais" (1901) já
traz para a poética de Machado elementos do realismo:
ironia, niilismo, recuperação do tempo
perdido. Texto
de Rodrigo
de Souza Leão
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