|
Judith Benevides(*)
É uma das variantes da intolerância, impaciência , agressividade, hostilidade, raiva. Incomoda muito. Há aqueles que justificam sua irritação, portadores ainda de uma baixa consciência, e aqueles que querem se livrar da irritação, já de uma consciência mais aprimorada, porque sofrem com ela e também fazem sofrer a outros. A irritação é uma perversão do sentimento de amor (Paul Diel), é a incapacidade de manifestar o amor na suas formas de compreensão, aceitação ativa e perdão. Psicologicamente, é a emergência e dominação momentânea da psique total por um arquétipo negativamente constelado, corresponde a uma cisão em que, o ego subjugado, perde seu alinhamento com o Self, âmbito dos valores superiores e da habilidade de uma pessoa expressar o melhor de si (Jung).
O presente artigo, é o relato de uma sessão, em que nos confrontamos com o arquétipo materno, negativamente constelado, e sua progressiva despotencialização , transformação e integração à consciência. Os procedimentos empregados são a regressão de memória a vivências passadas (Netherton; R. Woolger) e a terapia energética (TenDam). A regressão de memória , que envolve inúmeras etapas vivenciadas num estado alterado de consciência, permite acessar focalmente o núcleo em desequilíbrio, trazê-lo à consciência, processar a catarse, transmutar o complexo bipolar manifestado em sua negatividade, promover sua manisfestação positiva e integrá-lo a uma nova dimensão psíquica em que a bipolaridade não mais existe, mas sim, a síntese positiva das experiências bipolares conscientizadas e terapeutizadas: abreagidas, transformadas, ressignificadas, neutralizadas e positivadas.
A terapia energética lida com a eliminação dos resíduos de energia sutil, depositados nos canais condutores desta energia, os 'nadis', dos corpos etérico, emocional e mental inferiores. No caso, trata-se da eliminação de "imperil" (Moria), substância sutil associada à irritação.
Muitas pessoas me perguntam: "mas como é uma sessão de regressão ?" Para poder responder a esta curiosidade, sem ser de uma forma teórica, selecionei as principais intervenções terapeuticas e as peculiares respostas que elas eliciaram. Cada sessão é única e cada cliente é único, de modo que o que acontece é a expressão emocional que emerge da imaginação, terapeuticamente ativada, própria àquele tema e momento específicos. Neste artigo, não há espaço para a discussão dos elementos teóricos subjacentes às intervenções. O tempo total da sessão foi de 1:30 hs.
Célia tem 28 anos e queixava-se de uma irritação constante com a mãe. Criticava-a em vários aspectos e não tolerava sua aproximação física. A simples presença da mãe já a deixava
intranqüila, desconfortável, tensa e com o desejo de que ela se retirasse, rapidamente do aposento em que ambas se encontravam.
Pedi à Célia que se deitasse sobre o colchão , fechasse os olhos e após algumas respirações profundas solicitei, que se recordasse da última crise de irritação pela qual havia passado, ( justo no dia anterior à sessão), e reexperienciasse toda a situação, observando como a irritação ia acontecendo, percebendo em que partes do seu corpo ela se manifestava e quais eram as sensações correspondentes...
( A partir daqui, mudarei a forma discursiva para a de diálogo terapêutico:
C - designa Célia - cliente e J - Judith - terapeuta).
C- Minha mãe entra e vem se sentar perto de mim, me forço a não me levantar e vou sentindo uma aflição geral, minha garganta fica tensa, aperta, meu colo enrijece, nos braços e mãos uma vontade de bater..., mas não posso fazer isso com ela, é minha mãe.
J- Qual a emoção que provoca todas essas sensações?
C- Raiva, ódio, tenho vontade de avançar para cima dela.
J- Sentindo essa raiva, esse ódio, essas sensações na garganta, no colo, nos braços e mãos , deixe surgir na sua mente uma imagem que represente a
origem deste ódio e destas sensações.
C- Vejo a estátua de uma santa.
J - Dê vida a essa estátua.
C - Estou na capela de um convento, é uma missa, a madre superiora profere a missa, eu
sou uma noviça. Não gosto dessa madre.
J - Vá agora para um momento anterior, que deixa claro para você o motivo de v. não gostar dessa madre.
C - Estou no meu quarto, ela bate em mim, me espanca..., tem uma corda na mão e a usa como chicote, me pune porque cheguei atrasada à missa. Ela é horrível, faz assim com todo mundo, espanca por qualquer bobagem. Sinto muita raiva dela.
J - Você reage?
C - Não, só me defendo para proteger o rosto e a cabeça. Penso que reagir seria pior porqueninguém me defenderia de uma punição maior: ser expulsa do convento. Meus pais são muito pobres e querem que eu seja uma religiosa, me deixaram aqui para eu receber uma educação, uma formação e para eu prestar os votos. ODEIO esta mulher!
J - Você é obrigada a estar sob a tutela dela por quanto tempo?
C - Por dez anos, depois sou designada para um outro convento, que é um lugar muito agradável, onde me dou bem com todo mundo.
J - até que idade você vive?
C - Até 62 anos. Com 61 começo a sofrer de tuberculose e vou enfraquecendo continuamente.Vou ficando cada vez mais tempo acamada. Quando já não posso me levantar mais, recebo uma visita, é aquela madre superiora que ainda está viva e veio me visitar.
J - qual a atitude dela para com você e o que ela fala para você?
C - Diz que está muito arrependida por todo o sofrimento que me causou, por todas as agressões que me fez e que está aqui para se desculpar e pedir perdão. Muito tempo já se passou e eu me sinto muito fraca para discutir com ela agora; eu digo que a perdôo,
C - mas dentro de mim ainda guardo muito rancor. Ela vai embora achando que a perdoei.
J - Célia, vá agora para o último momento em que você ainda está dentro desse corpo doente e enfraquecido ... , quais são tuas últimas sensações, sentimentos e
pensamentos?
C - Quero morrer logo, acabar com essa dor nos pulmões, com a falta de ar e a fraqueza, ainda sinto rancor pela madre, não consegui perdoá-la.
J - Vá percebendo como esse corpo doente vai cessando... saia agora dele, perceba por aonde você sai... ( Célia estremece um pouco e relaxa...).
C - Saio pela frente, me levanto do corpo e saio flutuando... estou livre! Me sinto muito bem, Tem uma luz branca que me envolve e me dá energia, vou ficando mais jovem e forte novamente.
J - Agora que você está bem e com tuas forças recuperadas, vamos retomar aquela memória em que você está sendo espancada pela madre superiora, vá para o que você considera a a pior situação.
C - Ela me bate, me chuta e diz que vou aprender, por bem, ou por mal, a ser pontual e a não desrespeitá-la. Quanto mais ela bate, mais quer bater. ( Célia fica toda encolhida sobre o colchão).
J - Célia, sinta sua força, sinta e saiba que você está revivenciando uma memória e que agora você pode reagir sem risco algum, com tudo o que você precisa reagir para por para fora,definitivamente, toda essa raiva, deixe seu corpo reagir como ele quiser..., deixe ele se expressar..., faça e fale tudo o que você necessita...
C - Célia salta do colchão, começa a chutar e a socar almofadas, intencionalmente ali
colocadas, "você me paga..., vou te matar..., não vai sobrar nada de você, sua falsa, hipócrita, sua poderosa, sua degenerada, sua fingida, mentirosa, que finge ter amor dentro dentro de si, sua hodienta! ( agarra uma das almofadas e estrangula a madre com toda sua força..., sua respiração está alterada, transpira..., então..., vai se acalmando).
J - Ela morreu ?
C - Morreu.
J - Veja-a saindo do corpo.
C - Ela sai e vem novamente pedir perdão.
J - E agora, dá para você perdoá-la?
C - Acho que sim . Ela quer me abraçar.
J - Deixe-a se aproximar de você.
C - (Gritando) Não aguento que ela me toque, não quero, ainda quero bater mais, estraçalhar os ossos dela!
J - Faça isso!
C - ( Recomeça a chutar o colchão e a socar uma almofada ..., transpira, arfa... "vou te devolver tudo o que você me fez!" ... , já sem forças, vai se acalmando).
J - O que acontece com a madre superiora?
C - Ela morre outra vez. Seu corpo está todo quebrado.
J - Como você se sente?
C - Tranqüila.
J - Novamente, veja-a saindo do corpo todo quebrado.
C - Ela sai, está mais jovem, com o semblante muito sereno, olha para mim com amor. Agora, sinto que é verdadeiro esse amor, esse sentimento que vem dela para mim. Ela estende os braços para mim. Sinto que agora posso perdoá-la.
J - Você pode abraçá-la agora?
C - Posso, não me repugna nem arrepia mais. Nos abraçamos, compreensivamente. Agora ela se despede de mim e desaparece numa luz branca.
J - Como você se sente?
C - Cansada e aliviada.
J - Esta parte sua, de freira, como está?
C - Sorridente.
J - Então, pode deixá-la ir para aquela região do teu inconsciente, aonde ficam as memórias transformadas, positivadas, harmonizadas.... e venha retomando as sensações deste seu corpo físico, seus ritmos, suas pulsações...
C - Já estou aqui.
J - Imagine-se, agora, imediatamente abaixo da tua supra-consciência, que pode surgir na tua mente, como uma esfera luminosa, um estrela brilhante, um arco-íris...
Receba em você as cores necessárias para eliminar os resíduos da raiva, da irritação que ainda tenham restado, e deixe sair do seu corpo tudo que precisa ainda ser eliminado.
C - Chega Azul, Dourado, Prateado e Rosa. Sai uma fumaça que começa cinza chumbo e vai clareando, até ficar branca, e desaparece.
J - Venha, então, retornando, dentro do seu ritmo, para o mundo externo, vá se movimentando, se espreguiçando, abrindo os olhos, focalizando e quando estiver pronta, pode se levantar.
Após a sessão, conversamos sobre as conscientizações que foram realizadas. O que deixou Célia muito surpresa, foi a semelhança entre, os sentimentos e sensações que sentia pela madre superiora, e aqueles que sentia por sua mãe.
Bibliografia
Diel, P. "Le Symbolisme dans la Mytologie Grecque". Payot, Paris, 1966.
Jung, C. 'The archetypes and the Collective Unconscious', Collected Works, vol.9,
Princeton University Press., 1977.
Netherton,M. 'Past Lives Therapy'. Ace Books, 1987.
TenDam, H. 'A Cura Profunda' . Summus Editorial, 1990
Woolger,R. 'Muitas Vidas Muitos Eus, (Other Lifes, Other Selves), Bantam Books, 1992
|