Mais
que simplesmente escritor do Mississippi, William
Faulkner
é aclamado em todo mundo como um dos maiores
escritores do século XX. Autor
de romances psicológicos e simbólicos que retratam o
sul dos Estados Unidos. Durante
o período de sua maior realização artística, de O
Som e a Fúria em 1929, Desça
Moisés
em 1942. Faulkner realizou, durante uma década,
mais artisticamente que a maioria dos escritores
realizaram toda vida escrevendo. É um dos feitos mais
notáveis de literatura americana. Não cursou a escola
secundária, nem recebeu grau em nenhuma faculdade.
Viveu
em sua pequena cidade no estado mais pobre na nação
americana, saindo dela poucas vezes - algumas idas a
Hollywood em busca de dinheiro, para escrever
roteiros cinematográficos de filmes que jamais
assistia.
UM
POETA FRACASSADO
Para
ser grande é necessário 99% de talento, 99% de
disciplina e 99% de trabalho.
William
Faulkner
Em 1924, o amigo de Faulkner, Phil Stone, garantiu a
publicação de um volume da poesia, O Fauno de Mármore,
pela Four Seas Company; uma edição de
1.000 cópias, dedicado à mãe do autor e prefaciado pelo
próprio Stone.
Em janeiro de 1925, Faulkner se mudou para New Orleans e
penetrou num círculo literário que incluía Sherwood
Anderson (o autor do consagrado Winesburg, Ohio)
e centralizou-se seus esforços na revista literária The
Double Dealer, que publicava os primeiros trabalhos
escritos de Hart Crane, Ernest Hemingway, Robert Penn
Warren, Edmund Wilson e tantos outros literatos em início
de carreira.
Faulkner
publicou várias produções suas na revista e, anos mais
tarde, boa parte dessa safra seria publicada sob o título
New Orleans Sketches. Durante esse período, Faulkner escreveu seu
primeiro romance Paga de Soldado, e, seguindo os
conselhos de Anderson enviou-o ao editor Horace
Liveright. Depois que a Liveright aceitou o
romance, Faulkner viajou para a Europa. Em França,
esteve várias vezes no café em que James Joyce freqüentava,
mas nunca teve coragem de falar com Joyce apesar de
admirá-lo.
HOMEM
DE LETRAS
Inteligência
é capacidade que se tem
de
aceitar o que está ao redor.
William
Faulkner
Pouco
tempo depois de sua volta, uma companhia cinematográfica
filmou Um Intruso no Pó (preso
injustamente, o velho negro Beauchamp terá como aliado,
mesmo sem querer, o jovem branco Charles, que procura o
verdadeiro assassino para tirar da cadeia o homem a quem
ele deve muito
-
tendo como cenário a cidade de Oxford). A primeira
apresentação foi realizada em Oxford, a Faulkner
assistiu a ela. Depois disto, Faulkner apareceu mais
vezes em público. Ocasionalmente foi enviado em missão
pelo Ministério do Exterior dos Estados Unidos,
nascendo dessas viagens uma série
de entrevistas que ele deu no Japão, sendo publicada sob o
titulo de Faulkner em Nagano. Compareceu também
a reunião de escritores, em Paris a nas Filipinas. Às
vezes fazia conferencias, por exemplo, por ocasião da
cerimônia da distribuição dos diplomas quando sua
filha Jill terminou os estudos.
Depois
do casamento a partida de Jill para Charlottesville
(Virgínia), onde ela foi instalar-se, Faulkner a sua
mulher passaram a viver parte do ano em Virgínia. Ele
foi nomeado Escritor Residente da Universidade de Virgínia,
a um livro nasceu desta experiência: Faulkner na
Universidade, série de colóquios com os
estudantes. Faulkner recebeu varias recompensas, como o
Premio Pulitzer por Uma Fábula, assim como uma
medalha de ouro da Nação por seus Contos Reunidos.
Na
Virgínia, Faulkner pode satisfazer seu gosto pela
equitação e pela caça de montaria. Três semanas
antes de sua morte, ocorrida em conseqüência de uma
crise cardíaca, caíra ele do cavalo perto de Oxford
(Mississipi), e desde então sua saúde ficou abalada.
Faulkner
era um homem tímido, a repetia sempre que
preferia a companhia de seus amigos caçadores e das
pessoas simples; continuou fiscalizando a exploração
de sua fazendola. Tornara-se escritor porque era impossível
optar por outra escolha. Era movido por um demônio
interior; mas seu talento se mostrava irregular, podendo
ser excelente ou por vezes inteiramente medíocre.
Quando estava em seus melhores dias, poucos escritores
podiam igualá-lo. Certos críticos afirmam que os dois
melhores romancistas americanos são Henry James a
Faulkner.
A
obra literária de Faulkner se divide em três períodos,
sendo-lhes comuns certos temas, certos processos a
certos detalhes. Paga de Soldado, Mosquitos
a algumas historias de Treze Contos possuem
varias características da literatura do fim do século
XIX: a retórica keatsiana transformada por Tennyson em
qualquer coisa mais vã, mais abstrata a mais
irremediavelmente triste, o divino desespero e a lassidão
de um mundo que conhece todas as derrotas; o erotismo de
Swinburne produz mais sons, mais cores a mais brumas que
carne; a elegância preciosa do Yellow Book com
sua linguagem que quer imitar o movimento estilizado do
objeto de arte, a seu tédio, que há ao mesmo tempo tão
morno e tão velho quanto o primeiro sátiro; Faulkner
nunca freqüentou a escola da "pura prosa
americana": é um artista, é um retórico, um
virtuoso do estilo.
O
Povoado, o primeiro romance da Trilogia Snopes, constitui
um retrato irônico da tragédia clássica e uma ilustração
caustica sobre as grandes depressões que antecederam a
Guerra Civil norte-americana. Já
,
relata um
conflito de éticas e mentalidades entre o velho Sul,
lutando para manter-se, e a nova realidade americana pós-Guerra
Civil, encenado pelos membros da tradicional mas
conturbada família Sartoris.
Devemos
ao segundo período, em que Faulkner conseguiu
finalmente encontrar a formula de sua arte, O Som e a
Fúria, Enquanto Eu Agonizo, Santuário,
Luz de Agosto, Dr. Martino e outros contos,
Pilão, Absalão! Absalão! - O Invencível
e As Palmeiras Selvagens. Todas estas obras são
em geral de uma violência terrificante, de um cômico
exacerbado a de Lima austera dignidade. O horror a
sempre mantido no primeiro plano a às vezes uma meia
vitória a concedida a uma de suas personagens. Em
muitos de seus romances, mas não em todos, Faulkner
descreve sua própria região, a na maior parte deles se
serve dos mesmos métodos de narração descritiva que põem
e mantém o leitor num dédalo de longas frases, de uma
página inteira a conservar no espírito
detalhes ínfimos que só terão explicação no fim,
quando o conjunto da historia tenha tornado corpo a os
fatos se esclarecem mutuamente.
No
entanto não há dois romances que sejam contatos do
mesmo modo. Em O Som e a Fúria, a apresentação
das três personagens é concebido de tal maneira que o
leitor se vê obrigado a viver, ele próprio,
sucessivamente a existência de cada uma delas até o
momento em que, tornado claro tema principal do romance,
possa ele entender-lhe o sentido geral.
Em
Enquanto eu Agonizo, Faulkner
esmerou-se na construção das personagens deste romance
que lhe rendeu o Nobel de Literatura em 1949. A história
se passa no sul dos Estados Unidos, precisamente no
Mississipi, onde uma família parte numa longa viagem
para enterrar sua matriarca. Enquanto conduzem o corpo
da mãe pelo Mississipi, os membros da família
relembram o passado por meio de monólogos, num dos
romances mais criativos e importantes da literatura
americana do século XX. São 59 monólogos de 15
pessoas, com freqüência contendo imagens e alusões bíblicas).
Cada personagem se manifesta através de sua própria
consciência, de sua própria relação com o cortejo fúnebre
- simbólico, mas dolorosamente realista - que progride
de Bundren a Jefferson.
Os
outros romances são na maioria episódicos, se bem que
cada um possua a sua técnica particular, o quadro gótico
de Absalão! Absalão. A dupla intriga a as ações
paralelas de Luz de Agosto, a ação em ruccourci
(para empregar a expressão de James) e uma sucessão dos contos em O Invencível e a relação
alternada dos dois contos em As Palmeiras Selvagens.
A
estrutura de Santuário não é tão perfeita, mas
lembra, através de sua prudente imaginaria a seu
simbolismo, as convenções de uma peça estilizada.
Tais romances mostram o quanto Faulkner devia a tradição
do romance moderno, a marcam a sua própria contribuição.
Faulkner no seu modo de expressão que reside uma de
suas principais contribuições; ela se molda a cada um
de seus assuntos de maneira à evocação em termos próprios,
a acaba por dominá-lo, elevando-se, como o solista se
separa do coro, num canto característico que e a língua
pessoal de Faulkner, nervosa, sugestiva, rica em
imagens, cativante.
No
terceiro período, começando por O Lugarejo,
Faulkner oferece um pouco de esperança a condição
humana: uma promessa de liberação. A esperança é explorada em Desça
Moisés
a
mais ainda em O Urso e Outono no Delta. Em
Um Intruso no Pó a em Gambito do Cavalo a
Réquiem por uma Freira deparamos várias
tentativas para apresentar os programas políticos e os
sermões de igreja sob uma forma artística que os
transforma em entidades bastando-se a si mesmas.
Em
Desça
Moisés
(o romance que narra a luta do personagem Ike McCaslin
contra a devastação da mata, a posse de uma terra sem
dono e o preconceito racial. Faulkner escreveu sobre
sentimentos e atos de opressão, denunciando imperfeições
e injustiças) nele encontramos
a mais brilhante e a mais rica retórica de Faulkner. Em
Um Intruso no Pó a em Gambito do Cavalo
deparamos ao mesmo tempo uma mistura de deduções de
romances policiais e de temas sociológicos regionais.
Réquiem
por uma Freira é
ao mesmo tempo uma peça e um romance histórico, onde
se alternam cenas de teatro e capítulos de lembranças
históricas: sugerem que os julgamentos do passado têm
uma influência sobre as ações da heroína Temple
Drake. Seus últimos livros foram Uma Fábula, A
Cidade, A Mansão, a
obra disseca o coração humano e retrata a ganância
que o acomete na insaciável e inescrupulosa luta para
manter o poder) e
Os Reivers é escrito num tom cômico muito agradável.
Um
dos principais temas de Faulkner é que o homem está
condenado a ser homem: nos esforços do homem moderno,
para colocar toda sorte de novas invenções e de mecânicas
entre ele e a terra, reside a causa profunda de sua angústia.
Tentando desprender-se do velho, do passado, o ser
humano tenta renegar a própria natureza. O destino
fatal do homem, como toda a literatura ocidental o
disse, pode eventualmente tornar-se a sua glória.
Nenhum outro escritor americano moderno o afirmou com
tanta força. É o que ajuda a compreender a grandeza de
Faulkner.
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CINEMA
& LITERATURA PARA FAULKNER
Acaso
trabalhar para o cinema
prejudica sua maneira de
escrever?
Faulkner:
Nada pode prejudicar a maneira
de escrever de um escritor de
primeira classe, pois do contrário,
não há nada que possa ajudá-lo
muito. O problema não se aplica
se ele não for de primeira
categoria, pois já terá
vendido sua alma ao mundo dos
negócios.
Acaso
um escritor se compromete ao
escrever para o cinema?
Faulkner: Sempre, porque um filme é,
por sua natureza, uma colaboração,
e qualquer colaboração é um
compromisso, porque é isso que
tal palavra significa: dar e
receber.
De
que modo obtém os melhores
resultados, ao trabalhar para o
cinema?
Faulkner:
O meu trabalho cinematográfico
que me pareceu melhor foi feito
pelos atores, tendo o escritor
deixado de lado o script e
inventado a cena durante o
ensaio, pouco antes das câmeras
começarem a rodar. Se eu não
levasse, ou não sentisse que
era capaz de levar a sério o
trabalho cinematográfico, por
pura honestidade para com o
cinema e para comigo próprio, não
o teria tentado. Mas agora sei
que jamais serei um bom escritor
de cinema - de modo que tal
trabalho jamais terá para mim a
prioridade de minha própria
tarefa. |
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