PRÊMIO NOBEL

Estudo sobre o processo de morte celular dá Nobel a três pesquisadores

Brasília, 9 (Agência Brasil - ABr) - O entendimento de como a regulação genética afeta o desenvolvimento do organismo humano e da morte celular programada deram o prêmio Nobel 2002 de Medicina aos geneticistas Sidney Brenner, Robert Horvitz e John Sulston. Anunciado pela Real Academia Sueca de Ciências, na 2ª feira (7), o prêmio de US$ 1 milhão será dividido igualmente entre os três eleitos e, como os prêmios das outras áreas, será entregue no dia 10 de dezembro.

Células novas são geradas ao longo da vida de qualquer ser humano, seja na fase embrionária, fetal ou até mesmo na fase adulta. A morte celular também é normal e ocorre paralelamente no feto e no adulto, para manter um número equilibrado de células nos tecidos. Esse processo de controle, extremamente delicado, é chamado de morte celular programada. Os cientistas Nobel de Medicina usaram o nematóide Caenorhabditis elegans como sistema de modelo experimental, para entender como se dá a divisão e a diferenciação celular desde a fertilização do novo indivíduo até sua fase adulta. Eles identificaram genes-chave usados na regulação do desenvolvimento do organismo e na morte celular programada e provaram que existem genes correspondentes aos analisados também em espécies mais complexas, como o homem.

Sydeny Brenner, de 75 anos, é pesquisador do Instituto de Ciência Molecular de Berkeley, Estados Unidos. Foi ele quem estabeleceu o C. elegans como modelo experimental para análise da divisão celular, permitindo com isso que o processo pudesse ser acompanhado pelo microscópio. A descoberta foi feita em Cambridge, Inglaterra, de onde também é seu colega John Sulston, que desenvolve seus estudos no The Welcome Trust Sanger Institute de Cambridge.

No início dos anos 60, Brenner encontrou uma solução para acompanhar o desenvolvimento celular em animais multicelulares como os mamíferos, mas de dimensões e complexidade menores. Foi então que ele encontrou esse nematóide, um verme de aproximadamente 1mm e cujo tempo de vida e aparência transparente ajudaram a seguir a divisão celular diretamente no microscópio.

Sulston, que tem 50 anos, mapeou uma linhagem de células onde cada divisão e diferenciação era concomitante ao desenvolvimento de determinado tecido do C. elegans. Ele mostrou que células específicas estão envolvidas na morte celular programada e que fazem parte do processo de diferenciação celular. Foi Sulston ainda que identificou a primeira mutação de um gene que participava do processo de morte celular.

Numa publicação de 1976, ele descreveu uma certa linhagem celular como parte do desenvolvimento do sistema nervoso e mostrou que ela era invariável, ou seja, tanto a divisão celular como a diferenciação seguiam o mesmo programa. O prêmio Nobel lhe foi concedido pela descrição dos passos do processo de morte celular e por demonstrar as primeiras mutações genéticas envolvidas na morte das células. O gene nuc-1 é um desses genes e a proteína codificada por ele é também usada na degradação do DNA da célula prestes a morrer.

Robert Horvitz, do Massachusetts Institute os Technology (MIT), descobriu e caracterizou genes-chave no processo de controle da morte celular do C. elegans. Ele tem 55 anos de idade e seus estudos começaram nos anos 70, em complemento às investigações de Brenner e Sulston. Horvitz mostrou como esses genes interagem uns com outros no processo de morte celular e que há genes humanos correspondentes.

Para saber se havia um programa genético de controle da morte celular, Horvitz usou o C. elegans e publicou em 1986 a identificação das primeiras duas sequências de "genes da morte", o ced-3 e o ced-4. Esses genes são pré-requisito para a execução da morte celular. Ele identificou ainda outro gene, o ced-9, que protege as células da morte ao interagir com os genes ced-3 e ced-4 e provou que o genoma humana contém um ced-3 que corresponde ao do nematóide em estudo.

Conhecer como ocorre a morte celular programada, dizem os pesquisadores, ajudou a compreender os mecanismos usados por alguns vírus e bactérias para invadir as células humanas. Os pesquisadores sabem também que a Aids, doenças neurodegenerativas, o infarto do miocárdio e a parada cardíaca provocam uma perda celular causada pela morte excessiva de células. Já doenças como o câncer e aquelas ditas auto-imunes são caracterizadas pela redução da morte celular, o que leva a um quadro de sobrevivência de células que estavam programadas para morrer.

Por isso, eles acreditam que, no futuro, a tarefa será explorar ainda mais o conhecimento que se tem sobre o mecanismo que morte celular para refinar a maneira de induzir a morte de células nos processos de câncer. Há vários estudos de tratamento contra o câncer que se baseiam na simulação de um programa de "suicídio celular". (Lana Cristina)

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Redação: Virtualbooks

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