Consta que Augusto dos Anjos, ao ver impresso seu livro, não teve dinheiro para compor a capa. Faltava tinta. Tomou então de uma tesoura e cortou (como no clássico soneto) o dedo de sua singularíssima pessoa e com o sangue escreveu o título: EU.
Ainda hoje o maldito Augusto dos Anjos provoca polêmica. Muito pelo fato de ser pouco estudado nas Universidades e muito lido pelo público. Muito pelo fato ser pouco falado nas bocas pós-modernas. Ou seja, quem depois de decorridos século de sua morte continua, ou melhor, adquiriu o status de vendedor de poesia. O que se esconde por detrás do fenômeno Augusto dos Anjos? Qual glória póstuma procuram os poetas de hoje? Qual o tipo de ideário poético surge do mito?

Com apenas um livro, Eu, e tendo assinado o original com – reza a lenda -, sangue do próprio escarro tuberculoso, seus sonetos que uns dizem cientificistas e outros estranhos e outros bizarros conseguem uma conexão com o povo. Talvez este seja o X da questão. É o povo quem dá o aval a obra de Augusto dos Anjos. Não é o professor universitário e nem o poeta pós-moderno, moderno, antigo ou poetastro que seja. È uma glória pop-póstuma.

Numa conexão mediúnico-poética, entrei – por estes dias – em sonho e em leitura -, com a figura exponencial paraibana. Paraíba terra de meu querido pai que gosta tanto de Augusto dos Anjos.
Dedico este papo/entrevista ao meu pai Antonio Alberto de Souza Leão e ao primo Sérgio de Castro Pinto. Viva a ParaYba
 (*) Rodrigo de Souza Leão

Entrevista

Poetas dizem que o Senhor é brega? Poetas o vêem como mero vendedor de livros?
Augusto dos Anjos: - 
A mesma mão que afaga é a mão que apedreja. 
VERSOS ÍNTIMOS
O que diria ao jovem poeta sobre o Homem Moderno?
Augusto dos Anjos: -
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
  
VERSOS ÍNTIMOS
É possível conhecer nossos templos internos, os nossos locais sagrados sem destruir os nossos sonhos?
Augusto dos Anjos: -
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos(...)
E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!
VANDALISMO
O Senhor fez um pedido a um coveiro. Qual?
Augusto dos Anjos: - Não enterres, coveiro, o meu Passado,
Tem pena dessas cinzas que ficaram;
Eu vivo dessas crenças que passaram,
e quero sempre tê-las ao meu lado!
 
Não, não quero o meu sonho sepultado
No cemitério da Desilusão,
Que não se enterra assim sem compaixão
Os escombros benditos de um Passado!
TEMPOS IDOS
Augusto dos Anjos é puro? Ou se entregou aos desejos carnais?
Augusto dos Anjos: -
Se eu pudesse ser puro!  Se eu pudesse,
Depois de embebedado deste vinho.
Sair da vida puro como o arminho
Que os cabelos dos velhos embranquece!
 
Por que cumpri o universal ditame!?
Pois se eu sabia onde morava o Vício,
Por que não evitei o precipício
Estrangulando minha carne infame?!
INSÔNIA
Qual o Amor ideal?
  Augusto dos Anjos: -
O amor na Humanidade é uma mentira.
(...)É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.
 
O amor!  Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?
 
Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro —

Redação: Virtualbooks

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