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Cidade
de Deus é o filme brasileiro que disputará
indicação ao Oscar
Cidade
de Deus é o filme brasileiro
escolhido para disputar uma indicação ao
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A decisão
foi tomada por um júri determinado pela Agência
Nacional de Cinema (Ancine). O filme de
Fernando Meirelles já passou da marca de 2
milhões de espectadores no país.
Cidade de
Deus concorreu com outros cinco filmes
nacionais: "Caramuru", de Guel
Arraes; "A Paixão de Jacobina",
de Fábio Barreto; "O Invasor", de
Beto Brant"; "Timor Lorosae",
de Lucélia Santos, e "Uma Vida em
Segredo", de Suzana Amaral.
Cada país
só pode indicar à Academia de Artes e Ciências
Cinematográficas um filme para concorrer ao
prêmio de Melhor Filme Estrangeiro por isso
a disputa nacional. No dia 11 de feveiro sai
a resposta se Cidade de Deus participará do
Oscar. Na data, serão anunciadas as indicações
oficiais. A entrega do prêmio será em 23
de março.
(Alessandra
Bastos / fotos: divulgação)
Artigo
do jornalista Arnaldo Jabor sobre o filme
Cidade de Deus publicado no jornal O Estado
se São Paulo no dia 27 de agosto de 2002
'Cidade
de Deus' desmascara nossa crueldade
Não.
Cidade de Deus não é um filme, apenas. É
um fato importante, é um acontecimento
crucial, um furo na consciência nacional.
Fui ver o filme e saí modificado. Tenho a
impressão de que esse filme não se diluirá
como um espetáculo digerível. Nós não
vemos esse filme; esse filme nos vê. Com
essa epopéia da guerra dos miseráveis que
nasceram no livro de Paulo Lins, sentimo-nos
desamparados na platéia. Nossa vida de
espectadores, com roupas e comidas, com
namorada do lado, com pizza depois, ficou
ridícula.
Cidade de
Deus faz balançar nossa sensação de
"normalidade". Não dá mais para
acreditarmos apenas que o crime tem de ser
combatido para que a "ordem" seja
mantida. Destrói-se nosso "ponto de
vista" e viramos uma platéia de
culpados. Esse filme agrega uma descoberta
à opinião pública do País que nunca mais
poderá ser ignorada. Enquanto a miséria
era dócil, ninguém se preocupava com ela.
Nossas empregadas surgiam de manhã, sumiam
de noite, nossos faxineiros, copeiros e
engraxates eram seres abstratos. Os pobres
pareciam não ter vida interior.
Podíamos
romantizá-los, rir deles, paternalizá-los,
tudo. Mas, a TV, a comunicação
democratizante do consumo fez surgir uma
massa miserável, mas desejante. Pulsa nos
bailes funk uma brutal corrente de expressão,
a violência como fome e linguagem. A indústria
cultural estimulou o desejo e a cocaína e o
tráfico de armas trouxeram os meios para
sua possível realização.
Depois
que a cocaína despejou milhões de dólares
sobre o mundo da miséria, o contentamento
letárgico da exclusão virou fome de
consumo, a aceitação da escravidão disfarçada
de "emprego" virou uma invasão do
país "branco". Não é mais
inferioridade; é diferença. Agora, é pau
a pau. Existimos nós e eles.
Um outro
mundo está aparecendo, não como decadência
ou ameaça, mas como sinistra cultura,
pavorosos valores, tudo sob o manto sombrio
da morte. Estamos enfrentando agora a morte
no olho. A tragédia das periferias
brasileiras sempre foi um terremoto
ignorado, para o qual ninguém enviou
patrulhas de salvamento. Já houve um
terremoto e todos nós tentamos esquecê-lo,
subindo grades em nossas casas, com os
socialites cheirando o pó malhado de otários
e perpetuando essa miséria. Sempre tivemos
uma consciência epidérmica dos problemas
do crime. E só sabíamos dizer "que
horror!", mas esse filme nos faz entrar
dentro dos lamaçais, dentro das chacinas,
dentro de tudo que sempre detestamos ver.
Cidade de
Deus não é o retrato condoído das
favelas; não tem um só traço de
sentimentalismo. Ele é também o nosso
retrato, a 24 quadros por segundo, com
nossos rostos aparecendo por trás dos
meninos de 10 anos se matando com
metralhadoras e fuzis. Ali estão visíveis
todas as pistas de nosso caos, que levam à
sordidez de nossas classes dominantes, às
mentiras políticas, às falsas bondades,
aos retóricos ideais nacionais. O filme
prova nosso despreparo para resolver as tragédias
sociais, mesmo que houvesse vontade política.
O filme não conta o que aconteceu; o filme
mostra o que está acontecendo agora, sem
parar, enquanto o assistimos ou lemos estas
linhas.
O filme nos
revela que houve uma "mutação
social", ética, física. Ao sair do
cinema, tive vontade de gritar nas ruas:
"E aí? Ninguém vai fazer nada? Há
milhares de crianças se matando e vamos
continuar falando em criminalidade como um
caso de polícia?" E logo depois penso:
"Fazer o quê? Com que verbas, com que
bilhões de dólares, com que vontade política,
com que aparelhos do Estado, se o Estado está
sendo tragado para dentro da miséria
armada? Os fatos estão mais adiantados que
a lei. Não adianta esta eterna guerra
triste de policiais mal pagos e corrompidos
(justamente)contra miseráveis lutando por
existir.
Aquelas
crianças armadas estão acima do bem e do
mal, sim. Precisamos de novos conceitos para
entender este problema de Estado e da
sociedade. Filme e fato são um retrato da
sinuca de bico em que está o País todo. Em
Cidade de Deus, o documento invade a ficção.
Antes, havia uma "esperança" teórica;
hoje há o absoluto impasse. Há 40 anos
talvez houvesse uma solução higiênica,
assistencialista. Hoje, não adianta mais o
papo de luta de classes, de conscientização,
cidadania. Eles já se
"conscientizaram" sozinhos, em
outra direção. Tarde demais, políticos
egoístas; trata-se agora de um muro de
chumbo, com raízes fundas. Quem vai
resolver? Com que verbas, com que direito,
com que poderes? E quem disse que eles ainda
querem que nós os "salvemos"?
O filme de
Fernando Meirelles, co-dirigido por Katia
Lund, é extraordinariamente bem produzido,
bem dirigido, bem fotografado. Uma
obra-prima; mas, não se trata de dizer na
saída: "Gostei ou não gostei." Não
se qualifica a descoberta de uma doença.
Cidade de Deus fura as leis do espetáculo
normal, trai a indústria cultural e joga em
nossa cara não uma "mensagem",
mas uma sentença. Estamos condenados a
viver com essa tragédia, ela vai continuar
crescendo como um tumor e não estamos
preparados para curá-lo, porque fazemos
parte dele, com a polícia vendida, a lei
vendida, os negociantes envolvidos, aqui e
nas fronteiras.
Esse filme
vai ser visto pelo País todo, num terror
fascinado. Creio que vai provocar mudanças
na conduta política, pois faz parte de um
processo de conscientização que ninguém
pode mais deter, dentro e fora do cinturão
da miséria. Qualquer projeto nacional teria
de passar prioritariamente pela salvação
das periferias. Infelizmente, os
"projetos nacionais" chegam sempre
depois.
Cidade de
Deus já foi vendido para o mundo todo. Será
um sucesso planetário e vai revelar para
sempre nosso segredo: somos um dos países
mais cruéis do mundo. Cidade de Deus mostra
que o inferno é aqui, atrás de Ipanema ou
dos Jardins. Esse filme nos desmascara para
sempre. |