Produção Brasil/Suécia mostra a tragédia do Césio 137

O acidente nuclear ocorrido em Goiânia em 1987 é o tema do filme "Césio no Sangue", de 57 minutos, exibido no IV Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA).

Oficialmente, foram 11 mortes e 600 vítimas, mas como medir em números o tamanho de uma catástrofe nuclear? Não oficialmente, mais de cinco mil pessoas sofreram radiações do Césio 137. "Muitas vítimas fugiram para o Rio e São Paulo temendo discriminação. Tiveram também muitas pessoas que trabalharam após o acidente e não são consideradas vítimas, como policiais, seguranças, médicos, enfermeiros. Eles ficaram durante um a dois anos expostos ao Césio, e hoje estão doentes", conta o diretor do filme sueco, Lars Westmam, em entrevista à Radiobrás.

As conseqüências do acidente não são apenas orgânicas. Algumas vítimas são discriminadas até hoje na cidade. Elas são isoladas socialmente pelo medo dos moradores de se contaminarem. "Há pessoas que desde o acidente não namoram, não conseguem emprego, os amigos se afastaram, não recebem amor". Lars explica, que, passados quinze anos, não há mais o risco de uma pessoa contaminar outra.

Os malefícios ao homem acontecem porque o Césio 137 provoca morte das células no corpo humano. Existem níveis diferentes de contaminação. Os casos mais graves são de câncer. Mas há pessoas com vários tipos de alergia, sistema imunológico fraco, problemas sanguíneos e ósseos. Uma personagem do filme diz que sente tantas dores nas articulações que não consegue sequer varrer o quintal de casa. São pessoas que após o acidente não conseguem mais trabalhar e lutam por indenizações ou pensões na justiça. De acordo com o filme, poucas vítimas recebem ajuda financeira do Estado.

O acidente de Goiânia é considerado um dos mais graves acidentes nucleares do mundo, pelo número de pessoas expostas. Só perde para os acidentes de Harrisburg e Chernobyl, quando morreram oficialmente 31 pessoas, mas estima-se que milhares tenham sido contaminadas.

Tudo começou quando um catador de papel encontrou, entre sucatas de um antigo hospital, uma caixa de chumbo e resolveu cortar para vendê-la a um ferro velho. A caixa pesava aproximadamente 500 quilos e lá dentro se encontrava o perigo não imaginado. "Existem partículas de Célsio por toda parte. O perigo está quando você concentra essas partículas. A pedra encontrada em Goiânia tinha uma enorme concentração, por isso foi mortífera", explica o diretor.

O problema se alastrou de forma rápida pelo fascínio que a pedra azul brilhante exerce. No filme, o dono do ferro velho conta que levou um pedaço para casa e colocou em cima de uma mesa para enfeitar. Essas pessoas não tinham conhecimento da gravidade e, até que começassem a
passar mal, foram alastrando radioatividade. "Essas pessoas pegavam ônibus lotados e contaminavam outras", conta outra personagem no "Césio no Sangue".

O Césio 137 oferece perigo por 310 anos e está hoje guardado em tonéis de chumbo junto a vários objetos contaminados. Até hoje, muitos fetos nascem sem órgãos ou com o esqueleto defeituoso por causa do acidente de 1987. Além disso, ainda é grande o número de casos de câncer que não são relacionados com o caso.

Porém, em meio à tragédia, mortes e doenças, um caso de amor com o País. O sueco Lars Westmam esteve pela primeira vez no Brasil na época do acidente e, há dois anos, mora na Bahia. "Decidi morar no Brasil quando minha mãe morreu, pois ela morreu sozinha. Eu não quero morrer assim, por isso vim para cá. Quero viver aqui para morrer aqui".Os motivos que o fizeram escolher o País se resumem a uma frase: "Os brasileiros agem com os sentimentos".

(Alessandra Bastos)

Fontes

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