Risco de câncer em radioacidentados é quase zero

O medo mais freqüente quando ocorre um acidente radiológico ou nuclear é o de desenvolvimento de câncer ou de indivíduos mal-formados nas gerações futuras. Estudo feito pelos biomédicos Aparecido da Cruz e Cláudio Silva, ambos de Goiânia, comprovou que o risco de aparecimento de câncer ou outra doença associada ao acidente aumentou, na época, de duas a cinco vezes mais que o risco da população normal e não-exposta de Goiânia desenvolver algum tumor cancerígeno.

Aparecido da Cruz - que trabalhou de 89 a 92, no laboratório de citogenética da Suleide e que, em 2000, voltou à superintendência, e assumirá em breve o novo laboratório de Biologia Molecular - concluiu em estudo científico que os pacientes que morreram por lesão tumoral, após o acidente, estavam dentro da faixa de risco de uma população normal.

"Vale observar que o risco maior era o de aparecimento de leucemia no sistema linfóide, o que não ocorreu. Tampouco registrou-se câncer nas estruturas onde o Césio se deposita preferencialmente no organismo humano, que são músculos e ossos", registra Cruz. Segundo o biomédico, houve casos de tumor de mama e laringe, também considerados na faixa de risco da população normal e não-exposta.

Para Cruz, sequer se justifica hoje fazer medição de radiação de corpo inteiro, ainda que a literatura, na área da física, pressuponha que há risco de aparecimento de câncer entre dez e quinze anos após a contaminação por Césio. Isso porque o elemento tem meia-vida de apenas sete dias no corpo humano. As pessoas irradiadas foram todas descontaminadas no momento em que tomaram o quelante azul da prússia, afirma o médico.

Hoje, aqueles que apresentam lesões recorrentes também não apresentam taxa de radioatividade anormal, mas sim índices esperados de qualquer ser humano. As lesões, conforme explica o médico, eram tão extensas e profundas à época que o enxerto de pele necessário para repor os tecidos necrosados, em alguns casos, não se adaptou ao tecido, fazendo com que a lesão reabra. "É um efeito tardio da exposição à radiação, que ocorre também porque as lesões são em áreas de muito atrito como mão e pescoço", conta.

Caberia perguntar então por que quatro acidentados morreram em seguida ao acidente, já que tomaram azul da prússia e expulsaram todo Césio do organismo? A resposta, de acordo com Cruz, está na intensidade da energia radioativa absorvida por eles. O pouco tempo que tiveram contato direto com o radionuclídeo fez com que a energia radioativa provocasse estragos em seus organismos que foram letais, tais como hemorragias, queimaduras (no caso de Leide, inclusive internas) e infecções.

Aparecido da Cruz, em suas teses de mestrado e doutorado, desenvolvidas e defendidas na Universidade de Victoria, no Canadá, fez também o cálculo da probabilidade do aparecimento de mutações gaméticas. Ou seja, ele avaliou as mudanças nas células responsáveis pela transmissão do código genético às gerações futuras. O número encontrado foi elevado, ele mesmo admite. Os acidentados teriam 24 vezes mais chances de passarem mutações genéticas para seus filhos que a população normal não-exposta.

Ele ressalta que é preciso, no entanto, analisar outros números, como, por exemplo os indivíduos que foram expostos a altas e médias doses e a nenhuma dose. O último grupo é excluído do cálculo, bem como aqueles que não estão mais em idade reprodutiva, os idosos. "Os reprodutivamente ativos são um grupo pequeno", observa o médico. A conclusão é que, se na próxima geração, todos esses indivíduos reprodutivamente ativos tivesse filhos, a chance de nascer um indivíduo mal-formado é de 0,6 indivíduo. "Ou seja, o risco é quase zero", enfatiza.

Cruz lembra que nasceram quatro crianças expostas à radiação intra-útero. Outras doze nasceram depois do acidente, filhas de indivíduos expostos. Nenhuma dessas apresenta qualquer problema de saúde ainda hoje, muito menos nasceu com má-formação.

Levantamentos feitos dois anos após o acidente, no laboratório de citogenética, registraram taxas de mutação esperadas para células que recebem radiação. "As células dos mamíferos passam por mutações, necessárias para que se testem novas variantes de funcionamento e atividade. No caso dos acidentados, detectei danos em nível cromossômico, cuja tendência era desaparecer com o tempo, o que de fato aconteceu com todos os que apresentaram taxas de dano acima do normal. Dois anos depois, as taxas de dano voltaram ao nível das presentes na população não-exposta", explica Cruz.

Agora, a Suleide ofecerá mais um serviço laboratorial, que estará preferencialmente à disposição dos radioacidentados, mas também aberto à população triada pelo sistema de saúde público. É o LaGene, Laboratório de Citogenética Humana e Genética Molecular, que deverá ser inaugurado no segundo semestre. Cruz será o coordenador do laboratório, onde se realizarão exames da genética clássica, como, por exemplo, o que identifica indivíduos portadores da Síndrome de Down, ou da genética molecular, que identifica indivíduos pela decodificação do DNA. São os casos da medicina forense, seja na investigação de paternidade, ou na determinação do autor de um crime que tenha deixado vestígios no local. (Lana Cristina)

Fontes

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