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Mais de 500 pessoas são acompanhadas na
Superintendência Leide das Neves Ferreira (Suleide).
Elas foram divididas em grupos, de acordo com o nível
de exposição sofrido à época do acidente. No grupo
1, estão 54 pessoas, que foram de fato contaminadas e
apresentam lesões recorrentes devido à absorção da
radiação. São queimaduras que voltam porque o césio
provoca a queimadura no sistema linfático. Na época,
os radioacidentados do grupo 1 desenvolveram, além
das queimaduras, alterações de leucócitos e
plaquetas, infecções e sangramentos. O
acompanhamento médico desse grupo é feito a cada
seis meses.
No grupo 2, estão 44 pessoas que
recebem acompanhamento mais genérico, já que não
apresentam mais problemas de saúde relacionados com a
exposição ao Césio. Esse grupo recebeu menos dose
que o primeiro. Por fim, no grupo 3, estão os
acidentados que não receberam dose alguma, mas que se
envolveram com o acidente por terem trabalhado na
descontaminação ou por residirem próximos aos focos
de contaminação.
Toda a área atingida foi
descontaminada por técnicos da Cnen e da Defesa Civil
local. Algumas casas foram demolidas e o terreno onde
se encontravam concretado, como a casa de Roberto
(onde a cápsula foi rompida), o barracão das
ferramentas (para onde Wagner e Roberto levaram as
ferramentas contaminadas usadas no rompimento da cápsula),
o ferro-velho de Devair, a casa de Ernesto Fabiano
(que jogou no vaso sanitário o pó de césio), o
ferro-velho de Joaquim e o prédio da vigilância
sanitária.
Entre a constatação do acidente
radiológico e o início da descontaminação
passou-se cerca de quinze dias. A maioria dos locais
concretados encontra-se desabitado, mas em uso. Onde
era o ferro-velho de Devair há um estacionamento de
carros e caminhões. O ferro-velho de Ivo, irmão de
Devair, não foi concretado e o terrno foi liberado
para moradia seis anos após o acidente. Hoje, há uma
empresa de comércio de aparas de papel no local.
Alguns dos funcionários dessa empresa, inclusive,
moram no mesmo terreno.
O ferro-velho de Joaquim funciona
no mesmo local e ele mesmo ainda mora lá. O barracão
onde Wagner guardou as ferramentas é habitado por
outros moradores e, no imóvel onde funcionava a DVS,
está a Suleide, que na verdade nasceu como Fundação
Leide das Neves Ferreira (Funleide). No entanto, em
setembro de 99, para racionalizar o trabalho, a
secretaria de Saúde a transformou em superintendência.
De acordo com a superintendente,
Ivonete Daher, a medida não modificou as atribuições
da Suleide, que continua com atendimento médico,
laboaratorial, ondontológico e psicossocial aos
radioacidentados. "Na verdade, a superintendência
ficou administrativamente mais enxuta, por isso
reduzimos gastos. O trabalho continua o mesmo",
afirma. Além dos radioacidentados, são acompanhadas
23 crianças, filhas das vítimas.
O rejeito proveniente do local
contaminado foi levado para um depósito temporário
na época, todo blindado em contêineres. Alfredo
Tranjan Filho, coordenador de Projetos Especiais da
Cnen coordenou também a descontaminação, bem como a
posterior transferência do material para o depósito
definitivo em 91, que fica em Abadia de Goiás, a
poucos quilômetros de Goiânia. São seis toneladas
de rejeito que ocupam 3.500 m³, uma área do tamanho
de um campo de futebol. Essa área foi concretado e
coberta por um gramado.
Segundo Tranjan, 40% do material
coletado na descontaminação não era rejeito, porque
não estava contaminado. Isso porque a equipe da Cnen
foi obrigada a reunir solo, asfalto, restos de demolição,
cascalho, árvores, matéria orgânica etc. Os 40% não
radioativos foram levados para um depósito de lixo
urbano comum. Os 60% restantes foram separados por
tipo, classificados como 1, 2 e 3 devido seu grau de
radioatividade e reencapsulados em tambores e, depois,
em contêineres marítimos.
Hoje, em Abadia, funciona o Laboratório
de Radioecologia da Cnen que tem como função
principal acompanhar o comportamento do depósito,
tendo como enfoque a radiação. "É um controle
institucional que será feito até que a terra onde
está o rejeito possa ser liberada para uso",
disse Tranjan. Nesse estudo, os pesquisadores coletam
amostras de solo, plantas e outros organismos para análise.
Inserido numa área de 1,6 milhão
de m², que é um parque estadual, o depósito tem 186
mil m². O laboratório realiza ainda pesquisas sobre
o comportamento da radiação no meio ambiente,
auxiliando inclusive o trabalho de outros físicos,
como por exemplo Roberto Meigikos, da UFF. Há nessa
unidade da Cnen, um Centro de Informações, com uma
exposição sobre o acidente, que só em 2000 recebeu
10 mil visitantes.
Um dos projetos em andamento no
Laboratório de Radioecologia é o do viveiro de
plantas. "Queremos instalar um viveiro, para
produção de sementes de plantas do cerrado, em
conjunto com o município e organizações não-governamentais",
afirma Tranjan. O viveiro, de acordo com ele, seria
uma das medidas compensatórias, preconizadas pelo
estudo de impacto ambiental do depósito. (Lana
Cristina) |