Estudo analisa presença de Césio 13 anos após o acidente em Goiânia

Físicos da Universidade Federal Fluminense (UFF) constataram que os níveis de Césio, em Goiânia, permanecem abaixo do limite máximo ao que um ser humano pode se expor à radiação. Eles localizaram, no entanto, duas goiabeiras contaminadas, com índices acima do considerado normal para plantas e pediram à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) a retirada das árvores.

O levantamento faz parte de estudo para avaliação ambiental da área onde ocorreu, há 13 anos, o acidente radiológico mais grave do mundo. A cada quatro meses, eles coletam amostras de solo - entre 50 metros a 60 metros de profundidade - em locais que não foram concretados à época da descontaminação e de plantas, tais como árvores e hortaliças, além de frutas e ovos.

Eles também medem a radiação no ar, a um metro de altura do solo. O limite máximo é de 1 microsievert/hora (1 mSv) e, segundo o coordenador do estudo, Roberto Meigikos dos Anjos, os níveis aéreos têm estado sempre abaixo desse teto. A análise do solo tem dado resultados satisfatórios, sempre abaixo do parâmetro máximo, que é de 22.500 Beqerel por quilo (Bq/Kg).

As goiabeiras, no entanto, apresentaram radiação medida entre 800 Bq/Kg e 900 Bq/Kg. O nível máximo para plantas é de 600 Bq/Kg. "Até as folhas estavam contaminadas", diz Meigikos. Isso significa que o Césio contaminou a árvore quando do acidente e, ao percorrê-la pela seiva, foi se depositando até chegar às folhas. As goiabeiras foram arrancadas em outubro.

Foram avaliados também pés de manga, abacate, maracujá e mamão, mas em nenhum deles o nível de radiação estava acima do normal. A descoberta de que a goiabeira ainda apresentava níveis de contaminação levou os pesquisadores da UFF a ampliar o enfoque do estudo. Eles passaram a avaliar como as plantas absorvem um radionuclídeo, que é o átomo de um elemento radioativo.

A partir daí, passaram a simular em laboratório contaminação em diversas espécies de plantas, para avaliar o comportamento da radioatividade nelas. Em laboratórios no Rio de Janeiro e em São Paulo, estão em análise pés de mamão, laranja, limão e romã. O objetivo do estudo é estabelecer um modelo de manejo em caso de acidente radioativo.

É que todo elemento radioativo tem um tempo de decaimento, ou seja, ele se estabiliza depois que se torna outro elemento. A física estabeleceu um conceito pelo qual cada elemento leva para decair à metade, que é a meia-vida. Nas plantas, o termo seria a meia-vida ecológica. "Percebemos que a meia-vida ecológica na goiabeira é de quatro anos após detectar a contaminação", conta Meigikos.

Segundo ele, ao fazer o cálculo da meia-vida ecológica de outras plantas, é possível estabelecer o manejo correto, ou seja, se é preciso tomar a medida drástica de desmatar, ou se é necessário apenas realizar a poda para diminuir o nível de contaminação. "Como algumas árvores levam entre dez a quinze anos para começar a dar frutos, talvez nem seja o caso de retirar por completo", exemplifica.

A pesquisa sobre o comportamento da radioatividade no nível ambiental, em solos e plantas, será tema da tese de doutorado de Alessandro Facure, do Instituto de Física da UFF. Sua tese de mestrado, pela qual ele mediu a radiação no local do acidente, foi a primeira a ser produzida no Laboratório de Radioproteção Ambiental (Lara) do instituto, inaugurado em 98.

Meigikos pretende, também, montar um modelo institucional para transmitir informações à população em casos de acidentes radioativos. "Acidentes de qualquer natureza são caóticos e quando envolvem radioatidade há uma desinformação muito grande, além de muito preconceito. Queremos com esse modelo reduzir esses efeitos", revela.

Na época do acidente de Goiânia, por exemplo, a cidade ficou estimagtizada. Houve quem a apelidasse de Goianobil, tratamento pejorativo que aludia ao acidente nuclear de Chernobil, na Ucrânia, em 1986. Pessoas com carros com placa de Goiânia que transitassem em outras cidades eram mal-vistas. Chegou-se a propagar pela imprensa o boato de que toda cidade estaria contaminada.

O modelo a ser montado no Lara seria, assim, um manual de convivência pós-acidente. Mais que isso, os pesquisadores querem incluir noções e conceitos de física nuclear de uma maneira didática para serem repassados a alunos de primário e 2º grau. "É um modelo de ensino para a escola", diz Meigikos. O professor acredita que deva levar dois anos para finalizar o modelo.

Para Meigikos, a desinformação sobre radioatividade ainda existe hoje devido à falta de conhecimento. Nos próprios cursos de graduação de física, os conceitos de radioproteção, em sua opinião, são repassados como tópicos de outras disciplinas. "É preciso adotar, em primeiro lugar, o sistema internacional de medidas porque a radiação não muda, o que muda é a forma como é dado o resultado", preconiza. As unidades correspondentes ao sistema internacional, hoje, por exemplo, são o becquerel (Bq), o gray (Gy) e o sievert (Sv). Há na literatura, outras medidas citadas como o Curie, o rad e o rem, mais comumente usadas no sistema norte-americano.

A pesquisa em curso no Lara tem o apoio da Cnen, cuja função é a de editar normas para o uso e manipulação de elementos radioativos, fiscalizar estabelecimentos que trabalhem com eles tais como clínicas de radioterapia e radiologia e dar licenciamento aos mesmos. "Temos todo interesse de apoiar estudos que se realizem em Goiânia porque estamos sempre aprendendo com o seu acidente. Costumo dizer que a área onde o Césio foi exposto é um laboratório a céu aberto. Quanto mais informações, maiores as chances de que algo assim não volte a acontecer", afirma Alfredo Tranjan Filho, coordenador da área de Projetos Especiais da Cnen. (Lana Cristina)

Fontes

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